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Projeto pioneiro do Balcão de Justiça busca restaurar afetividade entre pais e filhos

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 “Meu filho não quer contato comigo e sempre me trata com rispidez”. O desabafo é da assistente administrativa Cátia*, triste com o desprezo do filho, “desde que ele decidiu ficar com o pai, depois do divórcio”.

O caso de Cátia, que só consegue ver o jovem Ícaro*, aos sábados, quando o garoto de 11 anos vai à catequese, é comum para muita gente. No Brasil, estima-se que 16 milhões de crianças e adolescentes sofrem em conflitos entre os pais na disputa da guarda dos filhos.

Trata-se da chamada “alienação parental”, que ocorre quando um dos pais tenta destituir a autoridade do outro, mediante ações e argumentos capazes de construir uma imagem negativa do ex-cônjuge, terminando por prejudicar o relacionamento com o filho.

Com o objetivo de buscar conciliar os pais em conflito e evitar danos à educação e ao desenvolvimento afetivo das crianças, o Tribunal de Justiça do Estado da Bahia, inaugurou, nesta terça-feira (29/4), um projeto piloto pioneiro no Balcão de Justiça e Cidadania, na Cidade Baixa.

Firmado em parceria com a Associação Brasileira Criança Feliz (ABCF), o projeto consiste na realização de atendimentos, todas as terças-feiras pela manhã, aos pais que estão em situação de alienação parental.

Vingança
Primeira cidadã a utilizar o serviço, Cátia foi encaminhada ao encontro com o psicanalista Cláudio Carvalho (foto), diretor da ABCF, após finalizar, em outra unidade do Balcão da Justiça e Cidadania, seu divórcio com Reinaldo*.

No encontro com o psicanalista especializado no tema, a assistente administrativa relatou seus problemas e frustrações por ser hostilizada pelo filho, apontando indícios de alienação parental por parte do seu ex-marido de 15 anos.

Para Carvalho, “o nome alienação parental é bem diferente, mas quando você começa a falar sobre o assunto, você identifica, na sua própria história, ou na de amigos e familiares, que isso é um problema antigo, com um nome novo, mas muito comum”.

Segundo o diretor da associação parceira do Tribunal de Justiça, o distúrbio afeta, direta e indiretamente, o rendimento escolar, a auto-estima, o bem-estar físico e o desenvolvimento biopsíquico dos jovens, e acaba por transformar a criança num “instrumento de vingança”.

Primordial
Estas são características da chamada Síndrome da Alienação Parental, cujo efeito mais grave, segundo Carvalho, é “a formação de um adulto com uma visão deturpada de pai ou de mãe, com repercussões na vida toda”.

O projeto desenvolvido pelo Tribunal de Justiça do Estado da Bahia demanda sensibilidade de todas as partes. O atendimento será ampliado para as outras unidades do Balcão de Justiça e Cidadania da Bahia, servindo de exemplo para os outros estados.

Além disso, também estão nos planos a inclusão de psicólogos, pedagogos e assistentes sociais nos encontros, cujo objetivo primordial é restaurar os laços entre pais e filhos. “Eu só quero me reaproximar do meu filho”, resume Cátia.

*Nomes fictícios para preservar a identidade da família.

Texto: Ascom TJBA / Foto: Nei Pinto

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